Especialista recomenda avaliar modalidade do contrato, frequência de uso, coparticipação e impacto dos aumentos ao longo dos anos
As despesas com assistência médica voltaram a exigir atenção no planejamento financeiro das famílias. No Brasil, 52,97 milhões de pessoas têm algum tipo de plano de assistência médica. Desse total, 44,49 milhões estão vinculadas a planos coletivos, enquanto 8,45 milhões possuem contratos individuais ou familiares.
A diferença entre as modalidades é importante principalmente na hora de analisar os reajustes. Enquanto os planos individuais e familiares regulamentados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) seguem um teto definido pela agência, os contratos coletivos não estão sujeitos ao mesmo limite.
Para Manoel Alexandre, especialista em planos de saúde há quase 20 anos, o planejamento deve levar em conta não apenas o valor da mensalidade atual, mas também a evolução das despesas ao longo do tempo.
“Uma mensalidade que cabe no bolso hoje pode deixar de ser sustentável após aumentos anuais, mudanças de faixa etária ou alterações na rotina. A análise precisa considerar o desembolso ao longo do ano, a modalidade contratada, a frequência de utilização e os objetivos de médio e longo prazo”, afirma.
Confira cinco pontos que devem ser considerados antes de contratar, renovar ou trocar um plano de saúde:
1. Some todas as despesas relacionadas à saúde
O primeiro passo é calcular quanto a família realmente gasta com saúde. Além da mensalidade do plano, entram nessa conta coparticipações, medicamentos, consultas particulares, exames e tratamentos recorrentes.
Segundo o especialista, quando esse conjunto de despesas se aproxima de 15% a 20% da renda, é importante reavaliar o orçamento. O percentual, porém, não é uma regra ou limite estabelecido para as famílias, mas uma referência para verificar o impacto da despesa na capacidade de poupança.
“O problema aparece antes da inadimplência. Se a pessoa interrompe investimentos, consome a reserva de emergência ou assume dívidas para manter a proteção, o valor já deixou de ser sustentável”, explica.
2. Saiba qual é a modalidade do plano antes de avaliar o reajuste
Nos planos individuais e familiares regulamentados, o reajuste anual segue o teto definido pela ANS. Para o período citado no material, o índice é de 5,11%.
Já nos planos coletivos, não há esse mesmo teto. Nos contratos com 30 ou mais beneficiários, por exemplo, o percentual é negociado entre a empresa contratante e a operadora ou administradora de benefícios.
Além do reajuste anual, o valor da mensalidade também pode mudar em razão da mudança de faixa etária, conforme as regras previstas no contrato.
Por isso, antes de questionar ou aceitar um aumento, o consumidor deve verificar qual é o tipo de contrato, a data de aniversário do plano e os critérios utilizados para chegar ao novo valor.
3. Avalie a portabilidade se o plano deixar de valer a pena
A portabilidade pode ser uma alternativa quando a rede credenciada já não atende às necessidades do beneficiário, o preço fica incompatível com a renda ou aparece uma opção mais adequada ao perfil de utilização.
Pelas regras da ANS, a troca pode ser feita sem o cumprimento de novas carências ou cobertura parcial temporária, desde que os requisitos exigidos sejam cumpridos.
A comparação, no entanto, não deve considerar apenas o preço. É importante verificar a abrangência geográfica, hospitais e laboratórios credenciados, tipo de acomodação, possibilidade de reembolso, histórico de reajustes e eventual continuidade de tratamentos.
Outro cuidado é não cancelar o plano atual antes da conclusão da portabilidade. A antecipação pode deixar o consumidor sem cobertura durante o processo.
4. Compare a coparticipação com a frequência de utilização
Nos planos com coparticipação, o beneficiário paga um valor adicional quando utiliza determinados serviços, além da mensalidade.
O modelo pode ser interessante para quem utiliza pouco o plano e consegue reservar dinheiro para eventuais consultas e exames. Para quem realiza terapias, acompanhamentos ou procedimentos frequentes, porém, a economia na mensalidade pode ser anulada pelo aumento dos gastos durante o ano.
A recomendação é analisar o histórico dos últimos 12 meses e fazer simulações considerando períodos de baixa, média e alta utilização.
“Uma mensalidade menor não significa necessariamente uma despesa total mais baixa. A escolha deve considerar a rotina de uso e a oscilação que as finanças conseguem absorver”, afirma o especialista.
5. Considere o impacto do envelhecimento no orçamento
O planejamento também deve levar em conta os reajustes anuais e as mudanças de faixa etária previstas no contrato.
Nos planos contratados a partir de 2004, por exemplo, a última faixa etária começa aos 59 anos. Pela regulamentação, o valor dessa faixa não pode ser superior a seis vezes o preço cobrado na primeira faixa.
Mesmo com essa regra, o custo total com saúde pode aumentar ao longo dos anos, principalmente pela combinação entre mensalidades mais altas, maior utilização dos serviços e gastos com medicamentos.
Por isso, a recomendação é fazer projeções para os próximos cinco, dez e 20 anos e criar reservas financeiras específicas para despesas médicas.
Também é importante revisar o plano diante de mudanças na vida familiar, como casamento, nascimento de filhos, saída de dependentes ou aposentadoria.
Planejamento deve ser revisto periodicamente
Para Manoel Alexandre, a escolha de um plano de saúde deve responder a três questões: se a cobertura é adequada, se a despesa cabe no orçamento sem comprometer outros objetivos e se a modalidade escolhida corresponde ao perfil de utilização da família.
“Não existe uma solução universalmente barata ou cara, mas aquela que entrega a assistência necessária de forma sustentável. Planejar a saúde é evitar decisões apressadas justamente nos momentos de maior vulnerabilidade”, conclui.
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